sábado, 19 de junho de 2010

Radical

Numa coluna da casa
Há a raiz de uma árvore
      Podada

A cada estação cresce a árvore
E mais uma vez é
      Podada

Abaixo da casa
Há uma fundação
Perfurando o solo
A erguer a construção

A raiz disputa lugar com a fundação
A raiz - orgânica - fere a fundação
Acha nutrientes no solo
Para crescer a árvore

Pela coluna da casa
Desce uma canaleta
Na chuva jorra água
Escoa pela ardósia
E some pelo ralo

Um pouco da água não desaparece no ralo
se espalha pela ardósia - prévio solo rígido - e na fissura do piso, em torno do caule
Se esvai
pela
fundação
atinge
o
solo

A água de cima
junta-se
ao solo de baixo
Motivam a raiz a alimentar a planta
E fomentam a guerra - raiz contra fundação

A raiz luta contra a fundação da casa
      Vence

Vitorioso, cresce o caule
Com tímidos galhos
Folhoso verdejante
Vitorioso, logo
      Podado

O sol ilumina a casa e as folhas
A casa estagnada não progride
As folhas iluminadas alimentam
A planta que progride
      Podada

O que vem do alto e do fundo
É pela planta
O que fica no meio, estático
É pelo homem e para ele
Não para a humanidade

A raiz é fundação da árvore
Ainda projetada, inexistente
Abstrata e desarmada
O concreto armado é fundação da casa

Raiz vence concreto
Árvore não vence casa

      Raiz, vens de baixo
      Eu, coluna, ergo-me acima
            orior supra ergo sum
      Não queira deslocar-me
      Oprimo-te em prol da casa

Vitorioso homem sobre natureza
Se acaba o homem, perde a casa
      

quarta-feira, 24 de março de 2010

Póstumo

publicado n'A Patada em 25 de fevereiro de 2004

................

O que mais machuca perante a morte é a triste e desesperadora sensação de não ser mais possível matar as saudades do ente querido que se foi.

................

Ah, se eu pudesse
uma última vez estar contigo
Bater um papo, jogar conversa fora
E saber como anda a tua vida

Ah, sim, eu queria
Dar-te um último grande abraço
E aproveitar mais um momento
Antes de tua precoce partida

Assim, hoje eu estaria
Muito menos desolado e arrependido
Por não acreditar que esses
Teus últimos dias seriam

A Si Deus acolhe
Todas as almas bondosas como a tua
E tão evidente chega a parecer
O teu papel entre nós

Há, sim, a certeza
De que ajudaste a salvar uma vida
Cuja difícil missão será, sozinha
Fazer crescer vosso jovem fruto

A simples passagem tua
Por nossas pequenas existências
Ficará marcada em nossas memórias
Como ferida aberta pelo destino

Assino, com muito carinho
Essa despretensiosa homenagem
Com uma lágrima no rosto
E uma imensa saudade no coração

E que Deus abençoe a todos nós.

Em memória de Celso Mendes dos Santos

Todo sofrimento tem seu fim

publicado n'A Patada em 2 de agosto de 2004

Ramstein está acostumado a ver rostos desesperados e aliviados. Diariamente, várias pessoas passam por seu escritório.

Atrás de grossas lentes, seus curiosos e levemente vesgos olhos perseguem os menores movimentos dos visitantes. A maioria chega cumprimentando-o com um solene "Bom dia!" e, a princípio, sente-se desconfortável em revelar seu real intuito em encontrá-lo, citando então pormenores da vida ou comentando o tempo. Às vezes, alguns vão até ali simplesmente para conversar e ver como anda a vida. Porém, Ramstein rapidamente percebe os casos em que a pressa da saudação e a aleatoriedade do assuntos escondem uma vontade imensa de se livrarem do que há de mais podre dentro deles. E ele tem total consciência disso.

Em geral, antes mesmo que Ramstein delicada e sutilmente peça para a pessoa seguir em frente e chegar ao motivo da visita, ela já se revela e desabafa seu sofrimento. Com bom humor, ele procura diminuir o constrangimento alheio, muitas vezes com sucesso.

Entretanto, ocasionamente o visitante vê-se obrigado a se conter e nem encontra palavras para expressar sua dor. Ramstein compreende a situação e procura abrir-lhe a porta para a solução. Muitos não percebem que há sempre, na verdade, um outro caminho, e que tal penitência não é necessária. É nesses casos que Ramstein fica mais satifeito em poder ajudar.

Depois de cada sessão, é evidente a diferença no semblante de quem passa por lá. Ao entrarem pelo corredor, Ramstein vê a tensão e mesmo o martírio estampado nas faces. Eles chegam, fecham a porta, sentam-se, respiram bem fundo, soltam-se, enquanto todo o inimaginável passa-lhes pela mente. Suspiros e gemidos permeiam o processo de libertação. Enfim, limpam-se da sujeira impregnada até a alma e despedem-se, sorridentes, satisfeitos e mais tranqüilos, para voltarem novamente no dia seguinte.

E Ramstein sorri. Sonhava em ser psiquiatra, mas trabalha na secretaria do laboratório de uma mineradora, onde ficam os dois únicos banheiros limpos do local.


Da desilusão

escrito em 2000, publicado n'A Patada em 23 de novembro de 2003

Fim de tudo, término do mundo
Vontade de sumir, desejo de desaparecer.

Afrodite enfurecera, virara Medusa,
Mirou o peito; pobre coração
Inocente, correspondeu ao olhar:
Petrificou-se.

Prefere agora a neve ao raio de sol
O breu à vela
O luto ao sorriso.

De nada serve chorar
Se adiantasse, de lágrimas seriam feitos
Os rios e lagos,
Somente chuva haveria, pranto dos céus.

Lamentos de santos e deuses
Soluços de anjos e ninfas
Só alegradas pelos acordes
Dos fios de mui poderosa harpa
Tocando envolventes baladas
Inebriando todos os sentidos e, aos poucos,
Lapidando novamente o imo
Flamejando-o, dando-lhe pulso, energia restauradora.

Mais uma vez a esperança,
A crença numa eventual generosidade do destino
Esse mesmo, de espírito ladino
Serelepe feito menino
Traiçoeiro tal qual a ação de um lupino
Deixando uma alma à deriva
Num mundo lupino, menino, ladino
Sozinha...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Descrença

publicado n'A Patada em 21 de novembro de 2003


Com tanta desgraça no mundo, às 14h16 do dia 18 de novembro Teófilo parou de acreditar em Deus.

A partir de então, Teófilo deixou de escrever o referido nome com letra maiúscula. Passou também a usar artigo indefinido. Se na mitologia grega havia vários deuses, o mundo moderno não seria diferente, a não ser pelo fato de existirem mais religiões. Teófilo percebeu que o motivo dos maiores conflitos era simplesmente a crença em um deus. Um ser abstrato, dono da verdade, suprapoderoso. Se tolerante e possuidor de bondade infinita, não conseguia impedir seus súditos de se matarem. Quando exclusivista, não permitia a existência de outras crenças. E quando indiferente às demais religiões, não podia salvar seus seguidores. Sendo assim, Teófilo concluiu que não era possível existir um deus. Nenhum.

Às 13h20 desse dia, Teófilo soube de mais uma série de atentados suicidas, dessa vez na Turquia. Todo mundo perdeu a noção no berço das civilizações. Os motoristas-bomba esperavam os religiosos inimigos reunirem-se na hora da oração e explodiam-nos. Teófilo só ficaria mais estupefato se soubesse de um pedófilo que se trancasse numa creche numa quarta-feira à tarde.
No mesmo dia, às 13h26, o chefe de Teófilo o chamou para conversar. Explicou que a cultura da empresa mudara, mas que Teófilo não havia conseguido se adaptar. Mesmo porque ninguém avisara Teófilo de mudança alguma. Às 13h55 Teófilo apertou o botão descendente do elevador, sem se despedir de ninguém.

Às 20h34 de 16 de novembro Teófilo assistia estarrecido a uma notícia na televisão sobre um casal de namorados assassinados por um garoto crudelíssimo. Não fosse a brutalidade do crime, ainda colocariam a culpa nos próprios jovens, por não avisarem seus pais aonde iriam de verdade. Teófilo lembrou-se das 18h56 de uma sexta-feira, uns dez anos antes, quando consolava sua paixão depois uma briga dos sogros e decidiram fugir. Correram para uma praia deserta distante e lá Teófilo teria os momentos mais mágicos da sua vida, até resolverem voltar, às 6h12 do dia seguinte. Porque a garota estava com medo de cobras.

Às 19h13 de 19 de novembro Teófilo foi beijar sua noiva e ela desviou o rosto. Precisavam conversar. Teófilo ouviu que era um dos caras mais bacanas que ela conhecera, mas a magia acabara e o brilho de Teófilo ofuscara-se. Às 22h22 uma lágrima caiu do olho esquerdo de Teófilo, enquanto ouvia uma canção antiga e bebia a quinta cerveja no sofá de casa, ao lado do cachorro.

No dia 26 de novembro, ao sair de casa para ir à banca, às 10h48, um mendigo parou Teófilo na rua e pediu-lhe umas moedas. Teófilo só tinha o dinheiro para o jornal, mas resolveu entregar ao homem roto. Teófilo estava mal, mas aquela alma precisava ainda mais de ajuda.

-Deus lhe pague!

Teófilo sorriu da fiel inocência do mendigo e foi caminhar pelo bairro.

Às 10h57 Teófilo esbarrou numa moça de óculos e cabelos negros amarrados, com uma porção de papéis nas mãos, que caíram na calçada. Teófilo ajudou-a a recolher tudo e seus olhares se cruzaram. Teófilo tentou pensar em algo gentil e fatal para dizer, mas achou que não era um bom momento e simplesmente pediu desculpas. A moça sorriu, desculpou e quis Teófilo. Teófilo xingou-se por ser tão desastrado e seguiu seu caminho incerto.

Às 4h08 desse mesmo dia a gráfica imprimia na terceira página do jornal diário uma oferta de emprego para o perfil de Teófilo, com uma remuneração um pouco mais baixa que a do trabalho anterior, porém ainda compatível com suas necessidades. Às 7h02 um pacote do jornal chegou à banca da praça e o jornaleiro foi logo cortar as amarras. Sem querer, acabou rasgando o exemplar de cima.

Andando distraído pela praça, Teófilo passou em frente à banca. Olhou as capas de revistas e as primeiras páginas dos jornais e resolveu comprar um. Às 11h26 disse ao jornaleiro que iria levar. No entanto, lembrou-se de que havia doado as moedas ao andarilho e desistiu da compra. O jornaleiro, por sua vez, lembrou-se do jornal rasgado e ofereceu-o a Teófilo. Ele o tomou, analisou e decidiu não levar, pois não era certo. Resmungou por haver entregue os trocados ao mendigo.

Ao voltar para casa, Teófilo sentiu-se sozinho e teve saudades da mãe, que não via havia anos. Às 12h01, ao chegar à sua porta, o telefone tocava. Apressou-se, mas o telefone parou antes que Teófilo o alcançasse. Aproveitando o aparelho na mão, procurou o número de sua mãe e discou-o. Estava ocupado. Reclamou que ela ainda só ficava pendurada no telefone e não tentou novamente. Às 12h03, a mãe de Teófilo devolveu o telefone ao gancho e desistiu de procurar seu filho.

Depois desse momento, as coincidências deixaram de acontecer em sua vida. E assim continuou ele em sua existência, até seu último suspiro, sozinho, num quarto escuro e sujo, em uma hora qualquer de uma noite fria de chuva.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Roteiro de Entrevista

Esta semana uma aluna de Psicologia da Unesp de Bauru entrou em contato comigo - e, imagino, com diversos colegas da faculdade - para fazer uma entrevista, parte de sua pesquisa na área de orientação vocacional. Topei e achei algumas perguntas legais, pois se tratavam de reflexões a que me propus antes de decidir fazer Estudos Literários e logo depois que entrei no curso. Se naquela época eu tinha uma visão bem míope a respeito, hoje ainda preciso de um óculos com grau maior - quase nenhuma certeza. Pelo menos já venho pensando bastante à medida que leio novas opiniões - novas para mim, às vezes já bem antigas nos cânones. Então achei por bem colocar algumas das respostas aqui para, talvez, incitar alguma discussão.

Quais são as áreas de atuação do profissional [de Estudos Literários]? O que é exatamente faz o profissional formado em sua atuação?

O caminho mais comum é a carreira acadêmica: mestrado, doutorado e docência em faculdades de Letras e afins. Como não temos Licenciatura, não podemos lecionar no ensino médio e fundamental, mas nada impede que demos aula em cursinhos. Também podemos virar críticos literários, tradutores de obras literárias, redatores em jornais, enfim, não dá pra saber ainda para onde vai quem se forma em EL.


Como são as condições de trabalho, nesta profissão?

Conformo dito acima, ainda é incerto, mas provavelmente será a média dos profissionais da área de Humanas: muita dedicação ao trabalho, com baixa remuneração. A produção do intelectual no Brasil não se transforma em produto cultural rapidamente, por isso não é valorizada.


Quais seriam os problemas/desafios enfrentados pelos profissionais da área?

Além de baixos salários, a sociedade brasileira não dá valor a especialistas na área de Literatura. Assim como a pesquisadores de forma geral. A reputação é de que pesquisa não produz renda. No curto prazo, pode ser verdade, mas isso é uma falácia se considerarmos o valor cultural agregado ao longo dos anos. França, Inglaterra, Itália e Alemanha não teriam a sociedade organizada como hoje, não fossem os importantes intelectuais que surgiram ao longo do milênio.


Quais contribuições, em sua opinião, que esta profissão oferece para a sociedade?

Esta é uma questão complicadíssima. A função básica destes profissionais é ajudar os leitores a compreenderem melhor as obras literárias – atenção: ajudar a compreender, não explicar ou simplesmente interpretar uma obra. A compreensão de um texto depende da experiência pessoal e dos valores de cada indivíduo e o seu significado pode ser múltiplo.

Pelo que tenho observado, existem as pessoas que se interessam por Literatura e para elas o seu objetivo é, geralmente, trazer ao ser humano a experiência da humanidade, fazer com que imaginemos coisas que não nos aconteceram e não vão acontecer, mas que poderiam ser verdade; a Literatura pode ser encarada, ainda, como a História que não aconteceu. Isso tudo faz com que as pessoas compreendam melhor o que é diferente, analisam outros pontos de vista e, assim, se tornem mais tolerantes, mais cultas, mais solidárias e também faz com que pensem nos problemas individuais e em sociedade. Leva problemas reais para o campo imaginário, onde encontra soluções, para trazê-las de volta ao mundo em que vivemos. Ou seja, a Literatura tem a capacidade de melhorar o indivíduo através da experiência literária.

No entanto, aqueles que não gostam da Literatura em geral, obviamente, não lêem a respeito; então de nada adiantam livros e livros que expliquem o valor da Literatura. Este é o grande desafio e a grande contribuição que profissionais de nossa área: fazer do brasileiro um leitor cotidiano para a evolução individual que leva à evolução da nação.


Você imagina que a profissão será diferente no futuro? Por quê?

Depende da evolução da educação no Brasil. Não só nas escolas, mas em casa também. Na casa de meus pais havia menos de vinte livros na estante. Li quase todos, só não li alguns que me pareciam doutrinadores. Eu achava bonito, mas em casa não havia a cultura da leitura. Nem da música. Dos meus pais aprendi que deveria estudar para ficar inteligente e que deveria me esforçar para alcançar meus objetivos, mas o repertório mesmo veio de fora, da escola e dos amigos. É um pacto conjunto para a evolução. Depois que as pessoas se convencerem do valor da pesquisa não só em ciência, mas também em idéias, a profissão do “estudioso literário” poderá ter uma reputação melhor e mais pessoas poderão procurá-lo. Mas devo confessar que, pelas políticas que os governos vêm adotando, em prol do desenvolvimento produtivo e econômico, sem investimento em educação, sem perspectiva de mudança, sou bem cético. Corintiano, sabe? Sei que o time provavelmente deve perder, mas ainda torço pra ganhar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Só não sabe quem não quer

E, triunfantes, bradaram as palmeiras imperiais: "De agora em diante, nenhum ser vivo nesta Terra padecerá da escuridão; o sol, nosso grande astro, nascerá para todos. É injusto que somente as copas de grandes árvores, os vastos gramados e os animais que se movimentam tenham seu quinhão de calor e luz. Todos terão acesso a essa dádiva divina, por mais tempo cada dia, por mais dias o ano inteiro."

Bichos, plantas e algas regozijaram-se ante a promessa da distribuição igualitária da riqueza maior, o desfecho feliz para todo um bioma. O sol preocupou-se levemente, mas entendeu que era seu dever. Gramíneas soturnas, sem reação, deixaram-se aquecer, até ressecarem. Musgos tornaram-se macios tapetes secos. Damas-da-noite cheiravam a mato decomposto. Minhocas confundiam-se ao feno do terreno. Sapos descoaxavam e corujas chacoalhavam trépidas na aerodinâmica dos besouros.

Os morcegos, sempre indiferentes e marginais, aproveitaram as novas frequentes visitas suculentas às cavernas e não mais precisaram externar-se. Nunca fizeram questão de ver o nitidamente claro e belo mundo tropical paradisíaco que reinava - louvado seja Deus - em todo aquele mundo igualitário e radiante.