quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Aparte

Foram apresentados. Tiveram ali seu primeiro simpósio em meio aos convivas. Ele convidou-a à dança. Ela superou a recusa instintiva e cedeu. Os pés embriagados entraram em compasso e desencadearam o toque primogênito dos lábios e das papilas. Ele avançou, ela recuou.

Trocaram olhares, sorrisos e contatos. No enlace seguinte, o encaixe perfeitamente complementar, o suor da satisfação mútua e a percepção de que o intento não seria em vão. Ele a procurava, ela deixava-se encontrar. Descobriram interesses em comum e isso os tornava mais íntimos.

Ele mostrou-lhe a incomum hibridez de seu mundo múltiplo e ela acolheu-o dengosamente em seu lar aconchegante. Concederam reciprocamente os vistos de livre passagem pela fronteira entre suas vidas. Estradas longas de asfalto e de terra, com destinos certos ou nem tanto. Até que ele tomou para si só a direção. Na busca por novos caminhos, caía sempre nos mesmos. A neblina de vias conhecidas e previsíveis embaralhava suas vistas e não o deixavam enxergar além. A melodia soava monótona, de um tom rosa cujo aroma evitava aspirar para não deixar-se envolver.

Ele ávido por novidade, ela desejosa de atenção, por mínima que fosse. No vácuo do sentimento esgotado surgiu um degradante campo magnético: quanto mais ela esforçava-se em reaproximar-se, mais levianamente reagia ele com subterfúgios. Ela o chamava para seu cotidiano e ele fugia para imprevistos impulsivos de devaneios coletivos. Ocultava e assim alimentava seu fastio. Mesmo que sentisse, ela julgaria inverossímil. Com involuntária displicência, manteve-se discreta e paciente. Semi-inconsciente da alienação, palestrava segurando com dedos fortes a mão que sorrateiramente esgueirava-se; confabulava procurando o respaldo de um olhar que, desfocado, esvaía-se.

Sufocado pela inércia da dissimulação mal representada, veio final e subitamente à tona com a implacável e inevitável sinceridade. Acumulou coragem para superar qualquer inação frente ao sofrimento tão simultaneamente alheio e próprio. Rudes palavras em prol do esclarecimento e da resignação para um futuro menos amargo. Ele, aparentemente impassível e internamente agoniado; ela, interrogando com lágrimas a desditosa notícia.

Dois dias para recuperar o fôlego e uma nova conversa para consumar o infortúnio de um crime sem culpados nem réus. E assim a humanidade segue acumulando mais um caso em seu ocaso. O aborto, involuntário ou não: a sutil morte prematura do embrião de um amor desconstruído.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Picolé de morango

publicado n'A Patada em 21 de janeiro de 2004

Eu estava no parque, ao lado de meu carrinho de picolé, contemplando uma rara tarde ensolarada de céu limpo. Um daqueles dias em que dá vontade de ir à praia, sentar à sombra de um quiosque, apreciar uma cervejinha bem gelada, soprar a nuca suada da esposa, só pra ela se Justificararrepiar e a gente dar risada.

- Tem picolé de molango?

Virei em direção à voz doce e suave e encontrei a imagem da inocência, uma linda garotinha de uns cinco anos, negrinha, com o cabelo pixaim adornado em diversas trancinhas cheias de miçangas. O olhar ansioso pela guloseima me fitava, exigindo a resposta o quanto antes.

- Tem sim, princesinha, toma!

Enquanto a mãe me pagava, a criança tentava em vão abrir, rasgar com unhas e dentes o último empecilho para chegar ao picolé, a embalagem plástica, que insistia em ficar ali, adiando a alegria das papilas gustativas da menina. A mãe a ajudou e foram andando em direção ao campinho de areia, onde as crianças podiam se divertir sob os olhares das genitoras.

Não pude deixar de continuar a observar aquela criaturinha. Ao chegarem à pracinha de brinquedos, a menina percebeu que um guri, loirinho, de olhos claros, mais ou menos da sua idade, não tirava o olho de seu picolé. Receosa entre deixar de aproveitá-lo ao máximo e ver o menino com vontade, decidiu-se, silenciosamente, por oferecer-lhe um pedaço, levando-o rumo à boca do desconhecido novo amigo.

Eu queria, naquele momento, ter uma câmera fotográfica, ou mesmo ter o dom de pintar, desenhar, qualquer coisa de modo a gravar a cena e repassá-la ao mundo inteiro, para esse bando de cidadãos honestos, que trabalham dia e noite e voltam para o lar, o claustro diário, acompanham o telejornal e desejam a morte dos ladrões cruéis, que tiram a vida de outros semelhantes cidadãos honestos. Algo doce e sutil o suficiente para talhar uma ferida profunda no egoísmo cotidiano das pessoas. Mas a situação era por demais tenra e eu não conseguiria de forma alguma ter algum sentimento vil.

A solidariedade entre as duas crianças, tão diferentes, mas tão iguais, me tocou. Eu quis abraçá-las bem forte, como se fossem meus netos.

O garotinho sorriu, agradecido, mas antes que ele pudesse aceitar, sua mãe percebeu o que acontecia e puxou-o subitamente para o seu lado, dando-lhe uma bronca e um tapa no bumbum. Do outro lado, a menina assistia estarrecida ao acontecimento e imediatamente levou um puxão de sua mãe, querendo protegê-la do menino que queria roubar o picolé da filha - foi o que ela pensou. No solavanco, o picolé soltou-se da mão da menina e voou, girando no ar, até cair no chão de areia. As duas crianças acompanharam a queda como pai vendo o filho saltar da janela de um edifício. Os olhos de ambos se encheram de lágrimas, porém nenhum chorou de verdade.

As mães começaram a trocar ofensas, dizendo coisas feias perto das crianças, sem o menor pudor. Elas, réus inocentes de um crime cometido por advogados e promotores, ouviam assustadas, em silêncio. A menina começou a chorar, o menino olhou com pena.

Inconformado, peguei dois picolés de morango de meu carrinho e fui andando em direção a eles, esperançoso de acabar com a confusão e dar algum conforto aos pequeninos. Estes me avistaram e foram, aos poucos, engolindo o soluço. Eu, já próximo, podia sentir a sua alegria me contagiando, quando as mães, irritadas, pegaram seus respectivos filhos e tomaram caminhos opostos. As crianças ainda me olhavam, uma de cada lado, com uma expressão de quem esteve perto da glória e não a alcançou. Em seus rostos, uma tristezinha por algo que não precisava ter acontecido.

Eu parei no meio do caminho, estático, sem saber o que pensar, nem o que fazer, com dois picolés de morango derretendo em minhas mãos e escorrendo pelos cotovelos. Até alguém gritar do carrinho:

- Ô, picolezeiro, dá pra vir atender logo?

terça-feira, 16 de junho de 2009

Entrelinhas de Luther King

escrito em 2000, publicado n'A Patada em 10 de dezembro de 2003

Um dia…
Jovens aprenderão palavras que não irão entender.
Irão apenas adicioná-las à sua gama de definições.
Crianças da Índia perguntarão:
O que é fome?
É algo parecido com depressão?
Crianças do Alabama perguntarão:
O que é segregação racial?
É o mesmo que solidão urbana?
Crianças de Hiroshima perguntarão:
O que é bomba atômica?
Tem relação com suicídio coletivo?
Crianças nas escolas perguntarão:
O que é guerra?
Tem a ver com extinção de espécies?
Tu irás responder-lhes,
com um soluço de saudade.
Dirás a elas,
escondendo lágrimas nos olhos:
Tais palavras não são mais usadas,
Assim como diligências, navios negreiros ou escravidão
Sapiência, fé ou emoção
Amor, amizade -
Palavras que perderam o sentido.
Cortaram o fio da sensibilidade e do companheirismo.
Por isso elas foram – todas – removidas dos dicionários.

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One Day…
Youngsters will learn words they will not understand.
Children from India will ask:
What is hunger?
Children from Alabama will ask:
What is racial segregation?
Children from Hiroshima will ask:
What is the atomic bomb?
Children at school will ask:
What is war?
You will answer them.
You will tell them:
Those words are not used any more,
Like stagecoaches, galleys, or slavery -
Words no longer meaningful.
That is why they have been removed from dictionaries.

Martin Luther King, Jr.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

escrito em 2000, publicado n'A Patada em 23 de novembro de 2003

A solução é fugir
largar tudo e ir embora
descuidar de quem te ignora
tomar um porre e morrer de cirrose
martirizar-se para que se goze
calar a boca fechada do mundo
talhar na pele um corte profundo
detonar tudo o que é dos ianques
desenhar flores nos tanques
levar uma criança ao parlamento
deliciar-se com o amargo do tormento
abrir uma porta para o nada
tocar roquenrou para uma fada
pular na lua até chegar ao sol
alisar tigre até virar caracol
psicografar um poema inerte
insistir no erro a fim de que acerte
rabiscar de negro o rubro do ocaso
mergulhar de cabeça num lago raso
achar graça na lágrima da viúva
deitar-se nu num ninho de saúva
esquecer-se de que se deve lembrar
lembrar-se de que se tem que parar
parar de crescer para deixar de perceber
que o feito não é perfeito como queria ver
e descobrir enfim que a solução
é insolúvel a quem é são
e que minha vida é a de um imbecil infantil continuando a acreditar
que Deus existe e que dará um jeito de acabar com o homem e nos salvar.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A revelação

publicado n'A Patada em 28 de novembro de 2003

Eu tinha uns dezesseis anos e estava a discutir com alguns amigos qual a imagem mais antiga que guardávamos em nossa memória. Um desafio e tanto.

Alguns juravam que conseguiam se lembrar de imagens de quando tinham menos de dois anos, outros se lembravam do momento em que conseguiram andar pela primeira vez. Se fosse andar de bicicleta, tudo bem, mas com as próprias pernas? Fala sério! Ninguém estava para ganhar um jogo, era só para tentar conhecer os limites da mente humana. Essas deviam ser imagens induzidas, histórias que as tias contavam de quando eram bebê e o cérebro tratava de criar toda a ambientação. Por isso, tais depoimentos foram descartados, mesmo que a contragosto dos contadores de causos.

Alguns foram mais plausíveis, lembraram de um piquenique no parque, quando ainda não tinha a estátua da fonte. Aliás, não havia nem a fonte na época. Outro conseguiu captar o momento em que ganhara um autorama de Natal, achava que com cinco anos de idade. Puxa, que legal, todo garoto tinha ou queria um autorama naquela época. Uma das amigas lembrou-se da mudança para a cidade atual, quando tinha seis anos mais ou menos. Não conseguia recordar-se da situação como um todo, mas sim da malinha em que trouxera seus brinquedinhos e apetrechos de menina e de onde a colocou, num criado-mudo no canto de seu novo quarto.

Chegou então a minha vez. A minha mais antiga recordação era meio trágica. Acho que era por isso que eu me lembrava. Eu tinha um cachorrinho chamado Isnupe. Eu sabia que não se escrevia assim, aliás, eu nem sabia escrever na época da situação, mas, depois que aprendi, eu escrevia desse jeito. O Isnupe era um vira-lata, mas eu não gostava de que o chamassem assim, pois ele era muito leal e inteligente.

Um dia, eu estava andando numa avenida perto da minha casa, com o Isnupe amarrado numa correntinha. Minha mãe e uma tia dela vinham logo atrás. Não lembrava direito o motivo, mas a correia soltou-se da minha mão e o Isnupe saiu correndo para atravessar a rua. Nisso veio um ônibus e passou bem em cima do pobrezinho. Não sabia se eu tinha chorado, se tinha ficado triste, se não tinha sentido nada na hora. Não fazia idéia da minha reação. E a cena acabava ali.

Todo mundo chocado, a discussão terminou. Mudamos de assunto, falamos de outras coisas, depois assistimos a um filme na televisão e fomos embora.

Chegando em casa, encontrei minha mãe na cozinha e fui conversar com ela.

- Mãe, você se lembra do Isnupe, aquele cachorrinho que eu tinha?

- Qual, filho?

- O Isnupe, aquele cachorrinho, que era…

E expliquei-lhe toda a cena descrita para meus amigos. De repente, veio a bomba:

- Filho, você nunca teve um cachorrinho.

- Como não? Eu lembro d’ele morrer!

- Filho, preste atenção: nunca existiu um Isnupe, isso tudo que você me contou nunca aconteceu. Deve ter sido um sonho, ou algo assim.

Naquele momento, meu mundo desabou. Todo o meu pensamento racional, todos os princípios em que me baseava, tudo aquilo que eu acreditava ser o certo, já não se sustentava mais. Se a primeira imagem que eu tinha em minha memória não existia de fato, os dogmas e corolários que guiavam meus atos poderiam estar da mesma forma deturpados.

Ali, decidi realmente rever meus conceitos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

versos livres e cinzas

escrito em 1999, publicado n'A Patada em 24 de outubro de 2003


Sob a lua lírica, crescente
mingua a alegria de amar
amaro desejo de tocar
e beijar a ninfa
que a outro pertence.

Antes fosse um outro qualquer
mas é justo;
injusto o coração
de encontro à razão
sofrimento pelo correto
erro do destino
joguete da vida
engano do cupido, esse estúpido:
                    tira essa venda dos olhos
                    e prevê os danos que irás causar
                    à alma de um mero sonhador
                    corroída escondido.

Ele sorri, tenta disfarçar
Os olhos, porém, se inundam
ao som de melodias-cicatrizes
jamais esquecidas.

Como dói sofrer calado!
Dor menor que se somada
às dores por todos os sós lamentadas.

                                                                            Que sejas tão feliz
                                                                            quanto seria eu
                                                                            em teu lugar
                                                                            E que a faças imensamente mais feliz
                                                                            do que poderia eu
                                                                            com meu esforço maior.


Silêncio, vou dormir.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Um dia em forma de música

publicado n'A Patada em 7 de novembro de 2003

Tic-tac, tic-tac, tic-tac… Fui acordando lentamente com aquele barulhinho. De súbito, começou uma musiquinha: "Passa, tempo, tic-tac, tic-tac, passa, hora…".

Eram sete da manhã de uma quinta-feira e, enquanto eu me despertava, me perguntava de onde viria aquela música. Foi quando percebi que meu despertador criara vida: tinha olhos, boca e dançava. "Chega logo, tic-tac, tic-tac e vai-te embora…" e meus livros começaram a balançar na prateleira, os lençóis levitaram e iniciaram um balé, me perseguindo e me chamando para bailar junto.

Saí correndo do meu quarto, ainda de pijama, quando apareceu na sala a faxineira, trajando uma roupa colorida cheia de lantejoulas e fazendo uma percussão com sua vassoura, xic-xec, toc-toc, e soltou a voz, entoando uma canção bizarra.

Eu não entendia nada do que estava acontecendo ali, todas aquelas melodias, aqueles sons. Será que eu estava enlouquecendo? Fugi para a rua, mas fui impedido por um amigo, "Por que a pressa? Te acalma, enche a alma, vamos nessa!". Nisso surgiu outro amigo, cantando outra estrofe, e mais um e outro e surgiram várias pessoas numa coreografia, cantando em coro, "o seu dia… será… feliiiz!" E sumiram, todos de uma vez.

Era isso mesmo que estava acontecendo? Em menos de meia hora, três músicas coreografadas, vários personagens, alguns fantasiosos, outros caricatos. Parecia um… não, não poderia ser. Sim, só podia ser isso! Meu Deus, que horror! Eu acordei e minha vida se transformara num musical! Eu odeio musicais! Aquele monte de gente cantarolando coisas sem nexo, todas alegres e fazendo piruetas quando deveriam simplesmente andar e falar.

Entretido nesses pensamentos, fui surpreendido por secretárias e office-boys pegando-me e carregando-me até o quarto, onde o despertador já voltara à sua forma original, estático e sem boca. As pessoas vestiram-me, "corre, corre, não demora, sai do porre, vai-te embora!", me deixaram no carro, abriram o portão, balançando as mãos em sinal de despedida e o carro saiu em direção ao trabalho.

No meio de tanta bagunça e idiotice, ao menos tive um momento sozinho. Eu não conseguia acreditar que aquilo estivesse acontecendo comigo. Poderia ser com a tia Luci, que vibrara quando "Chicago", aquele filme ridículo em que o Richard Gere aparece dançando de cueca samba-canção, ganhara o Oscar de melhor filme. Mas eu, eu tenho pavor a essa idéia absurda de encher o filme de músicas chatas, que começam com um barulhinho, o cantor vai falando baixinho, aumenta o volume e, por fim, grita lerdamente a estrofe pela trocentésima vez até estourar os tímpanos da audiência.

Eis que o som do carro se ligou de repente, "... and you bird can sing..." e, sem perceber, estava eu sorrindo e acompanhando a letra, berrando pela janela do carro, sendo seguido por milhares de pássaros verdes reluzentes. Tentei parar, mas não consegui. Percebi que eu havia sido tomado pela situação e estava também fora de controle.

Já não suportava mais aquilo e não encontrei outra solução a não ser me jogar da ponte com o carro. A barreira lateral segurou o automóvel, mas, com o impacto, fui arremessado pelo pára-brisa, ao som de uma orquestra de metais, indo cair no rio.

Afundando aos poucos, atordoado, não conseguia mais escutar nada. Já não ouvia mais nenhum daqueles acordes e timbres que me aterrorizavam. Calmamente, alcancei o solo, quase inconsciente. Naquele último momento, pude sentir o significado de paz e plenitude. No dia-a-dia corrido de uma cidade grande, a gente nunca se dá conta de que dar uma pausa em tudo de vez em quando é essencial para viver bem. Talvez os mais felizes dos seres sejam os monges budistas das montanhas do Tibete, isolados de tudo e de todos. Eles, sim, sabem o que é tranqüilidade e dão o devido valor a isso. Já era tarde para eu descobri-lo. Num último momento, em silêncio, meus olhos fecharam-se vagarosamente. Era o fim dos meus dias. No entanto eu iria embora feliz.

Foi então que chegou um peixe multicolorido, acompanhado de um conjunto de conchas tocando uma sinfonia.

*Baseado numa fobia de Daniel Anand