segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Queijo quente

Sexta, na panetteria, fui ao balcão pedir um queijo quente pra comer.
- Qual queijo, seor?
- Qual tem?
- Muçarela, queijo prato e queijo minas.
- Prato então.
- Anota o pedido dele, fazfavor?
Veio a garçonete:
- Vai ser o que, seor?
- Um queijo quente com queijo prato.
- Como?
- Um sanduíche de queijo quente, tipo prato.
- Ah, um misto quente?
Olhos brilharam intensamente.
- Isso! Com queijo prato. Mas daí ao invés de presunto eu queria muçarela no lugar.
- Então é um misto quente de queijo prato e muçarela?
Boca salivando.
- Isso mesmo.
- Mais alguma coisa, seor?
- Uma muié bem gostosa.

terça-feira, 1 de maio de 2012

eu e o mundo


da sacada do edifício
era eu e a metrópole
barulho, luz, movimento
uma multidão de solitários
buscando o que fazer

do quintal do interior
sou eu e o universo
a natureza em sua maior forma
e os muros

não sei qual é maior.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

je perdue

J'ai perdu ma chance
J'ai perdu confiance
J'ai perdu la tête
J'ai perdu le do de ma clarinette
J'ai perdu tout ce que j'aimais
J'ai perdu le goût et tout un pan de la vie
J'ai perdu ma fille à la naissance
Par délicatesse et avec élégance j'ai perdu ma vie
J'ai perdu mon sac
Je me suis perdu
Je suis perdu






* poemeto feito a partir de resultados de uma busca por "j'ai perdu" no google, após eu conferir se existia a expressão "je perdue" e perceber que havia entendido e escrito errado. sou debutante no francês, podem corrigir o que ficou non sense. se bem que, em se tratando de poesia, já se sabe.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A tentativa falha de um humor crítico

O grande problema por trás de toda a repercussão da piada deselegante de Rafinha Bastos é que ele, bem como Danilo Gentili e muitos dessa nova safra de comediantes, tentam ser, ao mesmo tempo, humoristas e formadores de opinião, muitas vezes usando a mesma linguagem para os dois fins - tarefa louvável e desafiadora -, sem, no entanto, serem geniais. Quando lhes convém, estão falando sério, tirando um sarro de políticos ou celebridades com o intuito de construir uma crítica moralista sarcástica. Em outros momentos, simplesmente usam o repertório de preconceitos, estereótipos e cultura machista para tecer piadas infames de teor ofensivo.

Muitas dessas piadas funcionariam muito bem - e de fato trazem o riso - num ambiente entre colegas semelhantes em que ninguém se sentiria atacado ou diminuído. O humor negro, por exemplo, se processa dessa forma. Não se trata de hipocrisia, mas sim de consciência de contexto. Assim como algumas piadas causam risadas histéricas em casas de humor nos Estados Unidos ou nos teatros de shopping centers brasileiros, elas surtem um efeito constrangedor ou mesmo humilhante num ambiente maior e mais complexo como o público telespectador na estratificada sociedade brasileira, em que minorias ainda lutam para conseguir de fato uma igualdade social, já prevista em lei, longe, porém, de existir nas relações humanas, econômicas e políticas do cotidiano.

Ou seja, eles se colocam numa posição, entre confortável e covarde, de justificarem suas palavras conforme a ocasião, ou mais, conforme a repercussão. É preciso prever no público um discernimento muito grande para separar os dois objetivos em um mesmo contexto. Obviamente, nas piadas sobre a cantora grávida ou do estupro parabenizável, temos quase certeza de que não refletem o real desejo ou a opinião dos humoristas; elas podem gerar graça pelo simples absurdo que representam. E, em tempos de intensas manifestações contra a descarada corrupção (mesmo de acordo com a lei), quando enfrentam diretamente com seus comentários ácidos e atrevidos os políticos, nos sentimos até vingados ao ver aqueles engravatados experimentando saias justas. Mas todo esse limbo intermediário, em que se percebem os preconceitos velados, é que nos deixa em dúvida se são de fato piadas de mau gosto ou afirmações normativas provenientes de uma cultura colonial. Eles precisariam ser muito bons, como são alguns poucos cartunistas brasileiros hoje, para conciliar os dois objetivos - crítica e riso - com o efeito pretendido.

Em suma: o humor agressivo contra políticos causa sentimento de justiça, porém sem efeito real de melhoria para os eleitores; o humor negro ou agressivo deveria ficar restrito a ambientes em que nenhum dos ouvintes se sinta ofendido ou humilhado. Fora isso, essa nouvelle vague do humor brasileiro não traz nada de original ou inovador na comédia nacional, muito menos age contra tragédia social e política de nosso país.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

desorgulho

Não gosto do sentimento geral de orgulho de grupo, porque ele sugere que indivíduos do grupo sejam melhores que os demais por uma simples característica. Tipo, orgulho de ser brasileiro, como se ser brasileiro fosse ser melhor que qualquer outra coisa. Orgulho de ser mineiro, como se qualquer mineiro fosse bom. De ser engenheiro ou literato, como se minhas opções de carreira me tornassem uma pessoa melhor que médicos ou advogados. De ser corinthiano, como se gostar de um time mesmo que nunca ganhe uma libertadores o faça torcedor mais apaixonado ou sei lá o que. O orgulho por si só não destaca a categoria, simplesmente iguala todos seus indivíduos numa nebulosa irracional e discriminatória.

Por outro lado, os movimentos de orgulho gay e orgulho negro, até mesmo do orgulho laico, além de outros surgidos nas últimas décadas, se originaram de um problema sério: violência, opressão e discriminação que estes grupos sofreram e ainda sofrem por aí. Ser parte desses grupos, outrora, deveria ser motivo de vergonha. É para anular esta vergonha de ser algo que a sociedade recrimina que surgem os movimentos de orgulho. Não é possível ser cidadão plenamente, numa sociedade igualitária, se há vergonha em ser o que se é. Por isso compreendo a necessidade de se falar, nestes casos, em orgulho, apesar de gostar mais da expressão "consciência negra", como forma de compreender-se como negro, saber sua história e conhecer os desafios para se alcançar a igualdade de fato e não só no discurso. Ser heterossexual ou branco nunca foi (e dificilmente será um dia) considerado motivo de vergonha social.

Portanto, amigos de orgulho hétero, de consciência branca e do dia internacional do homem, sua piada não tem graça.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

sobre política e religião, em 10 minutos


Diálogo com Anita Silveira sobre a frase que retransmiti no twitter:

"RT: @fernando_takai: um dia, eu espero, religião e política estejam bem distantes."

Anita publicou sua opinião em seu blog "café com groselha":
café com groselha: sobre política e religião, em 5 minutos

Se entendi corretamente, ela parte do princípio do meio termo na relação entre política e religião: esta não deve ser determinante na primeira, contudo não deve também ser totalmente isolada. Concordo que os princípios religiosos contem em si valores morais, que são a base da legislação de qualquer país. Ou seja, indiretamente a religião pode se envolver com a política.

No entanto, Anita iguala as duas posições, chamemos os "religiosos" e os "laicos", considerando que os dois lados desejam impor seu "próprio modo de vida" à legislação. E eleva a gravidade da posição dos laicos que desejam uma Lei com "ares de 'abertura' (...) quando na verdade é tão restrita quanto a primeira".

Eu discordo deste ponto de vista. Quando os religiosos desejam que as leis da sociedade de um Estado laico sejam iguais a suas leis morais, significa que querem impor seu modo de vida aos demais, isto está claro. Isso significa, na maioria das vezes, impossibilitar que outros modos de vida sejam permitidos. A via oposta, no entanto, não cerceia: abrange. Ela permite não só que os preceitos de uma religião possam ser seguidos, mas também outros pontos de vista. À medida que libera as diversas possibilidades, permite que todos estejam dentro da lei. Cada indivíduo ou grupo social aceita as regras de uma determinada religião caso achem que a mesma lhes conduzirá ao caminho correto.

Eu considerar que a religião não deve ser misturada com política significa orientar a política para abranger a opinião de todos ou ao máximo possível de cidadãos. Se as regras de um grupo forem aplicadas a todos, haverá uma considerável parcela não atendida.

O caso de Sarkozi, citado por Anita, se pretende laicizante, mas é, na verdade, também religioso: a lei proíbe que determinado item de vestuário seja usado, seguindo o preceito de liberdade da nossa fatídica 'ética judaico-cristã-ocidental'. Mas estamos falando aqui justamente de legalizar coisas que hoje são ilegais; o que Sarkozi fez foi bloquear uma das liberdades, no caminho oposto que desejo. Da mesma forma, não acho justo que em alguns países as mulheres sejam obrigadas a usar um véu. Elas deveriam escolher se devem ou não usar, baseadas em sua religião e em seus próprios princípios morais.

Meu ponto de vista é: as decisões devem ser baseadas em racionalidade e democracia, respeitando todos os modos de vida existentes, sem proibir os modos de vida diferentes. Coexistência de modos de vida. O fato de eu ser contra a criminalização do aborto não me faz ser a favor do aborto em si caso fosse um filho meu. O fato de eu ser a favor de liberação do casamento gay não me faz querer ser gay ou transformar todo mundo em gay. O fato de eu ser a favor da legalização de drogas leves não torna obrigatório o uso de maconha nos incensos das igrejas. O contrário sim: a criminalização destes aspectos impede diversos modos de vida particulares que não sejam o modo de vida de determinadas religiões. Imagine se quiséssemos proibir os cultos barulhentos de alguns evangélicos porque perturbam a tranquilidade tanto quando bares, ou a pregação de Testemunhas de Jeová na porta de nossa casa porque é invasão de privacidade ou coersão ideológica, ou as oferendas do candomblé ao mar, porque isso pode causar poluição das águas. Cada um desses religiosos ficaria coibido de sua fé, ao passo que grande parte da sociedade poderia sentir-se melhor atendida com as proibições. Mas é possível a convivência de todos sem essas proibições. Nos polêmicos temas anteriores, há diversas relações que envolvem saúde pública, direitos humanos e segurança pública que são deixados de lado devido a dogmas religiosos. Esses dogmas é que impedem a livre discussão de tabus e o debate aberto e que levam a uma aristocracia disfarçada de democracia.

Mesmo assim, se os candidatos realmente tivessem por princípios alguma posição, seria mais compreensível. O que considero mais grave nisso tudo e que me leva a querer separar política e religião, é que eles lançam mão desses tabus religiosos para ganhar votos. Todo o resto - plano de governo, propostas para saúde e educação etc. - fica em segundo plano. É a pior das consequências.

sábado, 26 de junho de 2010

A day in life


Gigante e eloquente, seguia desfilando o elefante pela avenida semi-pavimentada, cheia de buracos, remendos, com lobadas e depressões aqui e ali. Defecava como sempre um esterco de odor agradável a muitos olfatos, tórpidos de deleite ou êxtase, quando esguichou sua água trombática no gnu que se esforçava em manter-se aparte do espetáculo. Hienas e avestruzes deleitavam-se ululantes em torno do proboscídeo.

Mabecos que rondavam por perto uivaram em reprovação, despertando a atenção de lêmures esticados sobre as cabeças das girafas. Os pequenos bichos, saturados daquela apelativa e alienante ostentação de marfins, desceram rapidamente pelos pescoços longínquos e atacaram massivamente coquinhos em direção a uma das patas do elefante, gritando à plateia que olhasse por um instante ao azul do céu. Os mini-projéteis causaram-lhe um perceptível e indolor arranhão na pele cascuda. O público continuou estupefato com a afetada riqueza visual do mamífero maior. O elefante decidiu interromper o jorro nasal para utilizá-lo em momento mais oportuno.

E seguiu sua pomposa parada festiva, para satisfação de babuínos, gibões e gorilas, cercado de flamingos, chacais e guepardos.

(Os lêmures abrigaram-se novamente de focinhos empinados em suas guaritas, enquanto as hienas esgoelavam-se em risadas sabendo que mais tarde a carniça podre dos espectadores estaria mais uma vez disponível.)