terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sentimental


Hoje eu acordei sentimental pra burro.

Ontem foi o último dia de um trabalho intenso e desgastante de duas semanas que ocupava e esgotava minha mente de segunda a sábado, de modo que eu não conseguia pensar em outras coisas. Agora está reaberta a oficina. Não bastasse a comiseração com as vítimas do incêndio no Sul – mortes coletivas assim atacam meu pathos de uma forma avassaladora; fico pensando no desespero do momento da tragédia, na profunda tristeza dos familiares e amigos quando recebem a notícia e no peso que é para um lugar suportar tantas mortes simultâneas – e o aniversário de minha mãe – da tragédia não consigo desvincular as noites que ela passava me esperando acordada, pois na cabeça dela poderiam acontecer mil coisas comigo, de modo que ela não viesse a ver meu sorriso novamente –, ontem à noite soube de mais um amigo que faleceu. E o pior: há mais de um ano.

Como estou planejando uma ida à Berlim, fui procurar no facebook quais conhecidos estariam morando lá. Dentre eles, Mehdi Fallah, um iraniano que conheci num curso de alemão em Stuttgart em 2008. Desde que nos conhecemos, criou-se uma ligação muito forte entre nós; eu diria que ficamos amigos depois de cinco frases trocadas. Ele era daquele tipo de sujeito de  fala macia, deixa as pessoas à vontade, com sorriso fácil, porém não insistente, muito compreensivo. Tenho a impressão de que isso é comum entre os povos do Oriente Médio: um jeito emotivo, sincero e destemido, de demonstrar carinho pelos outros, tão ao contrário dos europeus e muito além do nosso sangue latino.



Morávamos perto um do outro, por isso almoçávamos e saíamos juntos às vezes à noite. Aprendi com ele um pouco da cultura persa; ele tentou me ensinar o alfabeto farsi e os fonemas diferentes; me explicou que o Irã não é um país de fanáticos religiosos (ele lamentava a perda de inúmeras liberdades do povo após a revolução islâmica, além de que detestava Ahmadinejad e a política externa do governo atual). Ele mesmo era bem pouco religioso e bastante aberto a aprender com o mundo. Bebia cerveja moderadamente, namorou uma polonesa naquela época (relação que não durou muito porque, segundo ele, eles eram "tão distantes um do outro"), imitava de modo extremamente engraçado as pessoas fumando (ele próprio não fumava).

Uma noite, no bar da universidade, junto com outros colegas do curso, fizemos uma divertida e politicamente incorreta brincadeira intercultural em que cada um fingia, em sua língua materna, proferir ofensas graves e raivosas contra um inimigo imaginário. Eu fiz uma primeira demonstração à Capitão Nascimento. A coreana, muito cândida, foi incapaz; disse que não conhecia nenhum xingamento em coreano - eu suponho que ela apenas não tinha coragem de proferi-los; a russa, ao contrário e apesar de um problema de fala que a impedia de pronunciar normalmente o "P", travando a voz, soltava um palavrão atrás do outro - na realidade só compreendi kurva, mas palavrão é coisa reconhecível em qualquer língua estrangeira. Quanto a Mehdi, eu também não faço a menor ideia do que ele disse, mas me pareceu coisa bem pesada. Assistindo novamente ao vídeo que fizemos, vejo que ele não consegue descontrair aqueles músculos do canto de boca, da bochecha e do lado do olho que evidenciam o riso contido.


Foi, enfim, o único, dos que conheci naquela ocasião, a comparecer à minha despedida, logo depois que eu quebrei meu tornozelo e tive que mantê-lo imobilizado até minha chegada de volta ao Brasil.





Depois disso, voltei duas vezes à Alemanha, uma vez bem rápido a trabalho e outra para uma viagem de três semanas, em 2011. Infelizmente, na mesma época ele viajou para o Irã e não pudemos nos encontrar. Ainda assim, trocamos e-mails com alguma frequência para saber como ia a vida um do outro. Ele se mudou para a Bavária, depois para Berlim. Relendo os e-mails, encontro expressões que mostram o caráter afetuoso, consternado com a cirurgia que tive que fazer no pé, mandando saudações ao meu pai e à minha mãe, agradecendo a cordialidade dos e-mails enviados, dizendo que sentia falta do nosso companheirismo e com a certeza de que nos veríamos novamente um dia.

Infelizmente, não. Nosso último contato foi em agosto de 2011, quando eu perguntei se ele não teria conta na rede social. Misteriosamente, disse que eu não poderia encontrá-lo, mas que se eu dissesse como me encontrar, ele o faria. Imaginei que pudesse ser para evitar algum tipo de perseguição política virtual, ou uma piada, quem sabe. No dia primeiro de setembro Meh Fa me adicionou em sua lista de contatos. Algumas poucas fotos com a mesma expressão de galante persa e muitas mensagens em farsi. Desde então, não nos comunicamos mais. Às vezes eu pensava que ele andava sumido, mas a correria de 2012 me deixou ocupado com as pessoas mais próximas.

Pois ontem à noite, já com muito sono, mas tentando organizar as coisas para a possível viagem logo em breve, nossos caminhos coincidem novamente: pela descrição no perfil, Mehdi morava ainda em Berlin, onde havia terminado o mestrado em Engenharia Mecânica pela Universidade Técnica. Uma alegria instantânea me tomou e já me preparava para enviar uma mensagem, quando vi uma imagem estranha no ícone de fotos. Mehdi, de terno e gravata, estava envolto por nuvens com fios de raios de sol; ao redor, negro com faixas vermelhas, velas, e inscrições em sua língua. Foi postada por algum amigo seu. Numa outra imagem, que parecia um cartaz, sua foto de rosto, com palavras também em alemão: "Apenas quem é esquecido está realmente morto. Tu te tornas vida e as lembranças são janelas através das quais podemos ver-te, sempre que quisermos." E mais abaixo, a confirmação: "Em memória de Mohammad Mehdi Fallah..."

Todo meu sono se transformou em comoção aflita. Eu queria entender o que havia acontecido. Depois de muitas tentativas através das mensagens em farsi, mal compreendidas pelo tradutor automático (vantagens do mundo moderno até para fomentar nossa tristeza), encontrei a mensagem de um amigo, informando nas duas línguas o falecimento de Mehdi em um acidente de metrô no dia 20 de novembro de 2011.

O que mais me dói ao pensar na morte é a anulação da possibilidade de reencontro. A saudade que podemos matar é até gostosa, aquele friozinho no âmago, um olhar perdido, um pequeno suspiro desejando rever a pessoa querida. Quando sabemos que é só pegar o telefone e ligar, só pegar uma estrada e, voilá, a pessoa está em nossa frente para um abraço caloroso e apertado, balançando o corpo pra um lado e pro outro como num passo de dança e uma breve palavra carinhosa ao pé do ouvido. Quando a distância é ultramarina ou intercontinental, é mais complicado, mas ainda factível, mesmo que a cada três ou dez anos. A morte, não, ela impede isso.

Não sabemos como é a morte. Dizem que o momento em que a alma escapa ao corpo é como um grande e definitivo orgasmo. Como saber? As circunstâncias que geram a morte, principalmente as trágicas, essas sim são definitivamente dolorosas e nos causam temor e compaixão. Depois, a certeza absoluta é o sofrimento para quem fica. Parece egoísmo pensar assim, mas é o que nos faz sofrer: nós, que ficamos, não teremos mais a alegria e o prazer da companhia da pessoa querida. E não há nada mais duro do que privar-se para sempre de uma alegria.

Pensar que existe um pós-vida em que todos os queridos estão lá, esperando por nós, é acalentador; trata-se, porém, de questão de fé. Nossa sensação é terrena, a dor está aqui neste plano e não poderá ser solucionada aqui. A solução, para tudo, como sempre foi, é o tempo. Aos poucos a imagem pulsante do ente que partiu vai desbotando e fica lá no cantinho das recordações, para deixar que continuemos a sobreviver. Conhecemos novas pessoas que conquistam nossa simpatia e tornam a ausência dos mortos mais suportável. Mas nunca serão substitutos.

Eu fiquei pensando porque a perda deste amigo, especificamente, com quem convivi tão pouco tempo, e cuja morte me foi noticiada com tamanho atraso, tem sido tão impactante. Não é a primeira vez, já perdi outros amigos e parentes anteriormente. Me parece que quanto mais próximo de mim estão esses falecidos, em termos de personalidade, mais profundamente eu sinto a perda. Foi assim com o Túlio, amigo de colégio, quando eu estava no exterior pela primeira vez; estourei em soluços numa bebedeira com amigos, que não entenderam nada. Depois com o Edinho, amigo da faculdade, a cujo velório pude comparecer e no qual chorei desesperado quando eu sequer conhecia sua família. Suponho que quanto maior a identidade com a pessoa, mais eu me sinto parte dela e vice-versa; desse modo, é um pedaço de mim que morre também - ou, se não morre, fica solitário, sem um correspondente.

Achei muito intrigante também o tipo de morte: acidente no metrô. Não pude deixar de cogitar a hipótese de suicídio, mas nossa última conversa havia sido pouco antes desse desfecho e tudo parecia correr bem, não percebi nada de diferente em suas palavras. O único sinal  bastante simbólico fui sua última foto de perfil, alterada menos de um mês antes: um pôr do sol púrpura atrás de uma árvore seca. Mas essa hipóteses não condiz com a figura que tenho dele, por isso prefiro acreditar que foi mesmo um acidente e lamento muito por isso.


Convivi com Mehdi por quase dois meses. Ele foi, certamente, o estrangeiro com quem mais me identifiquei até hoje, em toda minha vida. Principalmente considerando a diferença das culturas brasileira e persa, considero essa amizade tanto surpreendente, quanto reveladora: o outro pode estar mais próximo do que se imagina. Esse nacionalismo que gera um sentimento de grupo conciso e adversário de outros é algo perverso. Por mais que governos por aí tentem nos convencer de que povos estrangeiros, exóticos, desconhecidos são nossos inimigos naturais, eles não são. Todos os povos tem o potencial de serem amigos. Só precisamos conhecê-los de perto. Pena que muitos preferem fechar-se em seus casulos de certezas e preconceitos.

Acho que é esse significado de imensa fraternidade intercultural que me ligava a Mehdi. E por isso a lamento tanto. Tentar compreender sentimentos é algo em vão. Há que se sentir.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Queijo quente

Sexta, na panetteria, fui ao balcão pedir um queijo quente pra comer.
- Qual queijo, seor?
- Qual tem?
- Muçarela, queijo prato e queijo minas.
- Prato então.
- Anota o pedido dele, fazfavor?
Veio a garçonete:
- Vai ser o que, seor?
- Um queijo quente com queijo prato.
- Como?
- Um sanduíche de queijo quente, tipo prato.
- Ah, um misto quente?
Olhos brilharam intensamente.
- Isso! Com queijo prato. Mas daí ao invés de presunto eu queria muçarela no lugar.
- Então é um misto quente de queijo prato e muçarela?
Boca salivando.
- Isso mesmo.
- Mais alguma coisa, seor?
- Uma muié bem gostosa.

terça-feira, 1 de maio de 2012

eu e o mundo


da sacada do edifício
era eu e a metrópole
barulho, luz, movimento
uma multidão de solitários
buscando o que fazer

do quintal do interior
sou eu e o universo
a natureza em sua maior forma
e os muros

não sei qual é maior.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

je perdue

J'ai perdu ma chance
J'ai perdu confiance
J'ai perdu la tête
J'ai perdu le do de ma clarinette
J'ai perdu tout ce que j'aimais
J'ai perdu le goût et tout un pan de la vie
J'ai perdu ma fille à la naissance
Par délicatesse et avec élégance j'ai perdu ma vie
J'ai perdu mon sac
Je me suis perdu
Je suis perdu






* poemeto feito a partir de resultados de uma busca por "j'ai perdu" no google, após eu conferir se existia a expressão "je perdue" e perceber que havia entendido e escrito errado. sou debutante no francês, podem corrigir o que ficou non sense. se bem que, em se tratando de poesia, já se sabe.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A tentativa falha de um humor crítico

O grande problema por trás de toda a repercussão da piada deselegante de Rafinha Bastos é que ele, bem como Danilo Gentili e muitos dessa nova safra de comediantes, tentam ser, ao mesmo tempo, humoristas e formadores de opinião, muitas vezes usando a mesma linguagem para os dois fins - tarefa louvável e desafiadora -, sem, no entanto, serem geniais. Quando lhes convém, estão falando sério, tirando um sarro de políticos ou celebridades com o intuito de construir uma crítica moralista sarcástica. Em outros momentos, simplesmente usam o repertório de preconceitos, estereótipos e cultura machista para tecer piadas infames de teor ofensivo.

Muitas dessas piadas funcionariam muito bem - e de fato trazem o riso - num ambiente entre colegas semelhantes em que ninguém se sentiria atacado ou diminuído. O humor negro, por exemplo, se processa dessa forma. Não se trata de hipocrisia, mas sim de consciência de contexto. Assim como algumas piadas causam risadas histéricas em casas de humor nos Estados Unidos ou nos teatros de shopping centers brasileiros, elas surtem um efeito constrangedor ou mesmo humilhante num ambiente maior e mais complexo como o público telespectador na estratificada sociedade brasileira, em que minorias ainda lutam para conseguir de fato uma igualdade social, já prevista em lei, longe, porém, de existir nas relações humanas, econômicas e políticas do cotidiano.

Ou seja, eles se colocam numa posição, entre confortável e covarde, de justificarem suas palavras conforme a ocasião, ou mais, conforme a repercussão. É preciso prever no público um discernimento muito grande para separar os dois objetivos em um mesmo contexto. Obviamente, nas piadas sobre a cantora grávida ou do estupro parabenizável, temos quase certeza de que não refletem o real desejo ou a opinião dos humoristas; elas podem gerar graça pelo simples absurdo que representam. E, em tempos de intensas manifestações contra a descarada corrupção (mesmo de acordo com a lei), quando enfrentam diretamente com seus comentários ácidos e atrevidos os políticos, nos sentimos até vingados ao ver aqueles engravatados experimentando saias justas. Mas todo esse limbo intermediário, em que se percebem os preconceitos velados, é que nos deixa em dúvida se são de fato piadas de mau gosto ou afirmações normativas provenientes de uma cultura colonial. Eles precisariam ser muito bons, como são alguns poucos cartunistas brasileiros hoje, para conciliar os dois objetivos - crítica e riso - com o efeito pretendido.

Em suma: o humor agressivo contra políticos causa sentimento de justiça, porém sem efeito real de melhoria para os eleitores; o humor negro ou agressivo deveria ficar restrito a ambientes em que nenhum dos ouvintes se sinta ofendido ou humilhado. Fora isso, essa nouvelle vague do humor brasileiro não traz nada de original ou inovador na comédia nacional, muito menos age contra tragédia social e política de nosso país.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

desorgulho

Não gosto do sentimento geral de orgulho de grupo, porque ele sugere que indivíduos do grupo sejam melhores que os demais por uma simples característica. Tipo, orgulho de ser brasileiro, como se ser brasileiro fosse ser melhor que qualquer outra coisa. Orgulho de ser mineiro, como se qualquer mineiro fosse bom. De ser engenheiro ou literato, como se minhas opções de carreira me tornassem uma pessoa melhor que médicos ou advogados. De ser corinthiano, como se gostar de um time mesmo que nunca ganhe uma libertadores o faça torcedor mais apaixonado ou sei lá o que. O orgulho por si só não destaca a categoria, simplesmente iguala todos seus indivíduos numa nebulosa irracional e discriminatória.

Por outro lado, os movimentos de orgulho gay e orgulho negro, até mesmo do orgulho laico, além de outros surgidos nas últimas décadas, se originaram de um problema sério: violência, opressão e discriminação que estes grupos sofreram e ainda sofrem por aí. Ser parte desses grupos, outrora, deveria ser motivo de vergonha. É para anular esta vergonha de ser algo que a sociedade recrimina que surgem os movimentos de orgulho. Não é possível ser cidadão plenamente, numa sociedade igualitária, se há vergonha em ser o que se é. Por isso compreendo a necessidade de se falar, nestes casos, em orgulho, apesar de gostar mais da expressão "consciência negra", como forma de compreender-se como negro, saber sua história e conhecer os desafios para se alcançar a igualdade de fato e não só no discurso. Ser heterossexual ou branco nunca foi (e dificilmente será um dia) considerado motivo de vergonha social.

Portanto, amigos de orgulho hétero, de consciência branca e do dia internacional do homem, sua piada não tem graça.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

sobre política e religião, em 10 minutos


Diálogo com Anita Silveira sobre a frase que retransmiti no twitter:

"RT: @fernando_takai: um dia, eu espero, religião e política estejam bem distantes."

Anita publicou sua opinião em seu blog "café com groselha":
café com groselha: sobre política e religião, em 5 minutos

Se entendi corretamente, ela parte do princípio do meio termo na relação entre política e religião: esta não deve ser determinante na primeira, contudo não deve também ser totalmente isolada. Concordo que os princípios religiosos contem em si valores morais, que são a base da legislação de qualquer país. Ou seja, indiretamente a religião pode se envolver com a política.

No entanto, Anita iguala as duas posições, chamemos os "religiosos" e os "laicos", considerando que os dois lados desejam impor seu "próprio modo de vida" à legislação. E eleva a gravidade da posição dos laicos que desejam uma Lei com "ares de 'abertura' (...) quando na verdade é tão restrita quanto a primeira".

Eu discordo deste ponto de vista. Quando os religiosos desejam que as leis da sociedade de um Estado laico sejam iguais a suas leis morais, significa que querem impor seu modo de vida aos demais, isto está claro. Isso significa, na maioria das vezes, impossibilitar que outros modos de vida sejam permitidos. A via oposta, no entanto, não cerceia: abrange. Ela permite não só que os preceitos de uma religião possam ser seguidos, mas também outros pontos de vista. À medida que libera as diversas possibilidades, permite que todos estejam dentro da lei. Cada indivíduo ou grupo social aceita as regras de uma determinada religião caso achem que a mesma lhes conduzirá ao caminho correto.

Eu considerar que a religião não deve ser misturada com política significa orientar a política para abranger a opinião de todos ou ao máximo possível de cidadãos. Se as regras de um grupo forem aplicadas a todos, haverá uma considerável parcela não atendida.

O caso de Sarkozi, citado por Anita, se pretende laicizante, mas é, na verdade, também religioso: a lei proíbe que determinado item de vestuário seja usado, seguindo o preceito de liberdade da nossa fatídica 'ética judaico-cristã-ocidental'. Mas estamos falando aqui justamente de legalizar coisas que hoje são ilegais; o que Sarkozi fez foi bloquear uma das liberdades, no caminho oposto que desejo. Da mesma forma, não acho justo que em alguns países as mulheres sejam obrigadas a usar um véu. Elas deveriam escolher se devem ou não usar, baseadas em sua religião e em seus próprios princípios morais.

Meu ponto de vista é: as decisões devem ser baseadas em racionalidade e democracia, respeitando todos os modos de vida existentes, sem proibir os modos de vida diferentes. Coexistência de modos de vida. O fato de eu ser contra a criminalização do aborto não me faz ser a favor do aborto em si caso fosse um filho meu. O fato de eu ser a favor de liberação do casamento gay não me faz querer ser gay ou transformar todo mundo em gay. O fato de eu ser a favor da legalização de drogas leves não torna obrigatório o uso de maconha nos incensos das igrejas. O contrário sim: a criminalização destes aspectos impede diversos modos de vida particulares que não sejam o modo de vida de determinadas religiões. Imagine se quiséssemos proibir os cultos barulhentos de alguns evangélicos porque perturbam a tranquilidade tanto quando bares, ou a pregação de Testemunhas de Jeová na porta de nossa casa porque é invasão de privacidade ou coersão ideológica, ou as oferendas do candomblé ao mar, porque isso pode causar poluição das águas. Cada um desses religiosos ficaria coibido de sua fé, ao passo que grande parte da sociedade poderia sentir-se melhor atendida com as proibições. Mas é possível a convivência de todos sem essas proibições. Nos polêmicos temas anteriores, há diversas relações que envolvem saúde pública, direitos humanos e segurança pública que são deixados de lado devido a dogmas religiosos. Esses dogmas é que impedem a livre discussão de tabus e o debate aberto e que levam a uma aristocracia disfarçada de democracia.

Mesmo assim, se os candidatos realmente tivessem por princípios alguma posição, seria mais compreensível. O que considero mais grave nisso tudo e que me leva a querer separar política e religião, é que eles lançam mão desses tabus religiosos para ganhar votos. Todo o resto - plano de governo, propostas para saúde e educação etc. - fica em segundo plano. É a pior das consequências.