segunda-feira, 14 de abril de 2008

O jardim errante

Orgulhava-se de ser muito equilibrado e ponderado. Toda decisão era tomada com calma, toda situação era analisada com parcimônia, toda reação continha em si precaução. Tinha claro o caminho a ser percorrido, a linha a ser seguida, os procedimentos a serem executados, passo a passo, sem tropeçar, sem pular.

E no entanto escolheu a canção errada. Quando apertou o botão, foi surgindo aos poucos um som oco e constante, repetitivo. Depois reconheceu um barulho circular de bolhas incessantes, outros tons paralelos e concorrentes indescritíveis como seu efeito e, então, um zunido a princípio inaudível e por fim certamente triunfante. No embalo sentiu-se sugado para dentro de si.

Depois de ultrapassar um pavilhão e entrar em um canal, procurou inutilmente localizar-se. Era um caminho escuro, quente e úmido, um tanto pegajoso. Quase não conseguiu desvencilhar-se da cera da parede interna. Sua bússola interna estava desnorteada, relesteada, contrasulada e prooesteada. Fosse um caranguejo, estaria andando em loop para cima, não para os lados. 

Mas por sorte o caranguejo estava na praia, enquanto por azar ele estava ali solto em sua prisão, sem conseguir sair. Ao dar um passo adiante, sentiu uma cambalhota que o jogou para trás. Grito e ouviu o eco de sua voz distorcida, rouca, volumosa e amplificada. Decidiu calar-se, antes que explodisse a si mesmo com a potência do clamor próprio. Ao encostar a mão direita na parede, um revertério no pé de cima moveu a cabeça para o centro ao contrário do meio.

Foi quando esbarrou no cabo de um martelo, que imediatamente chocou-se na bigorna estrategicamente posicionada e pensou que dessa vez não escaparia, tamanho o impacto, que o arremessou pelo meio a um vestíbulo. Até cogitou trocar de roupa, mas um olho fechado com os braços enroscados na camisa já o fariam perder-se mais ainda. Só esse simples pensamento tornou a rodopiá-lo. A tontura deixava de ser um leve susto para tornar-se surto pesado. Começava a desesperar-se.

Quando finalmente entendeu que estava desprovido de seu labirinto e justamente lá dentro inserido, sofreu uma nova e vigorosa vertigem que o derrubou e o fez cambalear para todas as bandas. A perspectiva nauseabunda de nunca mais conseguir encontrar a saída para seu próprio ouvido fez com que tentasse se enforcar no primeiro nervo que encontrou antes do seu cérebro. Infelizmente com isso atormentou-lhe uma cãibra facial que contraiu seus músculos em uma assustadora expressão de careta repugnante.

Perdido e atordoado, errou eternamente por seu pequeno e momentanemante infinito jardim.

6 comentários:

Fabi disse...

Adorei!!! Exceto o quinto parágrafo: não sei se é por estar além da minha capacidade de entendimento, ou se é porque não deve ser entendido, ou se é porque está mal trabalhado.

Sempre bom uma pessoa diferenciada e querida escrevendo em um blog. Beijos, Semputs!

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rosa disse...

No embalo sentiu-se sugado para dentro de si.




eu vou me afogando em mim, consigo entender.
eu não sei se entendi tudo, de fato. Também não sei se é pra entender.
mas gostei,e digo o resto pra você. pessoalmente!

Gnomo disse...

Mmmm, senti uma leve dor no ouvido direito ao ler o texto. Se não estivesse sentado, seguramente cairia ao chão.
Quando vem um próximo post?

filomena disse...

Te achei! Foi difícil lembrar o nome do osso :).
Apresento também o itaypehoe.blogspot.com. A literatura de lingüista de lá é mais fraquinha. Brincadeira pura. Mas apresento de qualquer forma!
Bjs

Unknown disse...

Cara, ...